Written by

Pós Pandemia – Bate papo com brasileiros que constroem a Cultura de Segurança no Brasil.

A pandemia do Covid-19 exigiu um número grande ações rápidas e coordenadas mas ao mesmo tempo é momento de reflexão.

Nunca antes a importância de um planejamento de gestão de crises ficou tão evidente mas o cenário também exigiu uma compreensão maior dos nossos limites e, quem está sabendo utilizar esse momento para replanejar o futuro, está conseguindo construir alternativas que ainda não haviam sido propostas.

Tendo esse cenário como pano de fundo, a CoSafe convidou alguns dos principais profissionais do mercado da segurança para ajudar a refletir como será possível contribuir para a sociedade nesse nessa realidade que se transformou tão rapidamente.

Formulamos perguntas baseadas em três visões:

  • A visão macro – O que aconteceu com o mundo e como se dará o retorno à normalidade ou a uma nova normalidade.
  • A visão do mercado de segurança – O que muda na Cultura de Segurança nas organizações a partir de agora.
  • O aprendizado –  Qual a vivência e aprendizagem dentro das organizações que podem ser compartilhadas e espelhadas para a sociedade.


PARTE 1 – A VISÃO MACRO

Como imagina o retorno da sociedade à normalidade após a pandemia? Será uma “novo normal”?

Mudanças nas relações pessoais

Com certeza será um novo normal, tanto no comportamento profissional quanto no pessoal. Essa crise trouxe novas preocupações, impondo barreiras que não estávamos acostumados a enfrentar. No lado pessoal, as novas maneiras de se relacionar com familiares e amigos vão encurtar algumas distâncias, fortalecendo a importância das novas tecnologias pessoais, e aumentando o risco de exposição. Por outro lado, acredito que a solidariedade e a empatia devem se fortalecer e a ajuda ao próximo ganha força. Distâncias longas serão encurtadas, e o relacionamento pessoal será muito mais valorizado. (Tiago Duran)

Na minha opinião, não teremos um novo normal e sim uma continuidade do que estamos vivendo neste tempo de quarentena. Estamos aprendendo muito e com certeza vamos mudar muitos aspectos que antes não prestávamos muita atenção. O latino, em especial o brasileiro tem mania de abraçar e beijar muitas vezes uma pessoa que acabamos de conhecer. Rotinas de higiene, limpeza e principalmente contato pessoal mudarão após esta Pandemia. Acredito também que dedicaremos mais tempo para a família e para nos mesmos, trabalho remoto será uma realidade e reuniões presenciais entrarão em extinção. (Benny Schlesinger)

Maior atenção às relações internacionais

Existem vários pilares que permeiam esses aprendizados, mas destacaria o âmbito institucional no que diz respeito a oportunidade de rever o comportamento das relações nas organizações internacionais. Como todos sabemos, grandes crises são resultados de fatores não mapeados ou não tratados devidamente e no caso da pandemia global a origem se deu pelo fato de ignorarem alertas iniciais que segundo estudos recentes de uma renomada instituição europeia, teríamos um decréscimo de quase 100% do impacto que a comunidade global está passando, devido Covid-19. (Thiago Filgueiras Biermann)

Visão holística dos impactos de uma crise

No meu ponto de vista, temos alguns desafios importantes nas nossas atividades, mas talvez os principais sejam o generalizado despreparo e falta de consciência quanto aos impactos e ações previstas para uma situação assim. Afinal, dependemos de decisões das lideranças, em diferentes níveis e áreas de atuação,  que, muitas vezes seguindo uma tendência imediatista, sem discernimento suficiente para a definição de estratégias corretas com objetivos coerentes em momentos de crise, estão causando e deverão causar ainda mais prejuízos, perda de tempo e de vidas, desnecessariamente. Como costumo dizer, as pessoas devem ser habituadas e treinadas a pensar e agir em situações de crise, e isso se faz em tempos de paz. (Otavio Novo)

Mudanças nas relações de trabalho

No lado profissional, as empresas estão percebendo situações que até ontem estavam restritas a áreas específicas. Áreas que batalhavam para convencer a alta administração sobre novas possibilidades e cenários.

Home office para algumas áreas que não eram prioridade por serem linha de frente, já viraram realidade. Centrais de atendimento telefônico de grandes empresas e atendimento bancário por exemplo, são áreas e serviços que deverão fazer parte dessa nova realidade de trabalho.

Como toda novidade, essa trará novos problemas, e as empresas devem se preparar para lidar com isso. Novos problemas nas áreas de segurança da informação, gestão de pessoas, relacionamentos trabalhistas, tudo isso deve estar na lista das empresas que querem se adequar ao novo momento que enfrentaremos na volta. (Tiago Duran)

Na empresa que trabalho, a maioria dos processos foram “transformados” em digitais, isso porque ainda tínhamos diversas “manias” como imprimir para assinar, para revisar, chamar reuniões quando não precisa ou mesmo marcar reuniões com pessoas externas, sem necessidade (poderia resolver por call ou zoom). Mas isso só conseguimos perceber por causa da quarentena.

Criamos canais de comunicações digitais (instagram) além de webinar com todas as equipes pelo menos uma vez por semana. Em resumo, estamos interagindo mais e nos encontrando, mesmo que virtualmente todas as semanas. A mudança tecnológica veio para ficar! Estamos aproveitando muito mais o que estes recursos tem a nos oferecer. (Benny Shlesinger)

Acho que o maior desafio ainda é manter o negócio funcionando e, ao mesmo tempo, proteger os funcionários (e ainda fazê-los sentirem-se protegidos). (Luis Sergio Lennert)

Mudanças na economia

Fato é que teremos mudanças. Um novo cenário econômico está surgindo, tanto no Brasil quanto mundialmente, com as perdas impostas pelas medidas preventivas ao COVID-19 e mudanças culturais. (Breno Araújo)

Para as empresas que atendem o varejo, a adaptação às novas tecnologias deve ser imprescindível. As pessoas vão se acostumar aos serviços on-line, e quem não se adaptar, estará condenado, desde a vendinha do bairro até os grandes varejistas. (Tiago Duran)


PARTE 2 – IMPACTOS NO MERCADO DE SEGURANÇA

Quais serão os impactos permanentes na sociedade, economia e empresas? Questões de segurança, privacidade, trabalho remoto, empregabilidade etc.

Valorização da Cultura de Segurança e do gerenciamento de crise

Acho que as coisas voltarão ao normal, mas com um pouco mais de cuidado, sobretudo sobre higiene. Nas empresas entendo que isso tudo foi um aprendizado e, entender o quanto somos capazes de administrar uma crise de grande impacto. Serviu para saber que temos que ter um comitê de crises, que temos que prospectar cenários de riscos, que temos que ter um BCP, etc.

Serviu para medir a nossa capacidade de trabalhar e produzir remotamente (home office), entre tantas outras coisas. (Marcos Altemari)

Essa necessidade fortalecerá áreas como Continuidade de Negócios e Gestão de Crises. Essa crise atual foi o argumento final para convencer os executivos da importância de estar preparado para o que conhecemos e o que não conhecemos. A preparação para responder a qualquer cenário deverá ser uma das prioridades das empresas que quiserem se manter vivas durante uma crise como essa e como as novas que virão (vazamento de informações, exposição da marca, trabalhistas, questões sociais, etc.). (Tiago Duran)

Certamente, cravar um cenário para o futuro é algo impossível, mas de modo resumido, acredito que o novo normal deverá começar com  a concretização daquilo que antes considerávamos  como o “adequado” , especialmente em termos de segurança (considerando o conceito amplo da palavra segurança). Assim, todos os cuidados, normas e procedimentos efetivos que puderem ser instituídos deverão ser, e serão cobrados pelo mercado e sociedade. O processo de quarentena mais da liberação gradativa das atividades sociais deverá ficar na memória de todos, tanto pelo aspecto psicológico , quanto em relação as perdas efetivas, humanas e financeiras. Durante um bom tempo, acredito que os controles e cobranças por condutas responsáveis deverá ser uma regra. E aí, provavelmente será uma questão de colocar em prática muito do que já sabemos que é importante.

Vale lembrar que a pandemia em curso não se trata de algo imprevisível, e já vem sendo incluído em mapeamentos de riscos há muitos anos, inclusive nos nossos. Já foram desenhados procedimentos em níveis governamentais e corporativos para previsão e resposta adequadas, mas não foram colocadas em prática. Agora, creio que serão. Assim como para o risco de terrorismo, onde temos procedimentos de inteligência sobre focos de origem, checagem em aeroportos, e altos investimentos de combate, deveremos ter o mesmo para esse risco. O desafio deverá ser aumentar ainda mais a cultura de gestão de riscos e crises para não só prevenir e minimizar os impactos desse risco, mas de tantos outros com potencialidade de impactos importantes. (Otavio Novo)

Possível aumento de criminalidade e convulsões sociais

Para Security e no Brasil, isso pode se traduzir em:

a) mais protestos devido a austeridade econômica e também ao cenário político motivado pelas mortes, negligência e falta de organização das autoridades;

b) aumento da criminalidade, que, provavelmente, com a queda de receita os criminosos irão se adaptar mais rapidamente do que os governos (focados na luta contra o COVID-19 e questões políticas).

(…) isso pode se traduzir em mudanças nas estruturas de trabalho com maior flexibilidade para trabalho remoto, aumentando a preocupação com a segurança da informação e ataques cibernéticos. (Breno Araújo)

Acho que além do aumento da criminalidade, vamos ter uma nova onda de distúrbios civis/ protestos/ manifestações quando voltarmos à normalidade.

Dessa vez, ainda mais forte. Acredito que essa onda trará grandes implicações relacionadas à mobilidade das pessoas e negócios também. (Luis Sergio Lennert)


PARTE 3 – APRENDIZADOS

Dentro da sua realidade, da sua organização, quais foram os maiores desafios? Estrutura, comunicação, conhecimento, comportamento?

Aprendizado cross border

Internamente, tivemos uma atitude extremamente positiva na companhia e com bons resultados. A produção e entregas continuaram e os colaboradores de home office intensificaram as tarefas de auxílio ao time de campo. Em Security, não só apoiamos na gestão da crise e plano de continuidade, como também fomos ao campo reforçando a segurança dos nossos sites e colaboradores. A comunicação funcionou e o plano de contingência também. Aproveitamos por sermos uma empresa global para acelerar nosso aprendizado com a lições das nossas operações asiáticas. O mesmo estamos fazendo agora para um próximo passo de return to work. (Breno Araujo)

Mudar o processo de aprendizado interno

Evidentemente que as empresas iniciam um processo para se reinventarem frente ao cenário de abalo social e financeiro e com isso começa a clarear a necessidade de pensar fora da rotina, se reinventar e melhorar seus processos de governança intrinsicamente conectados a segurança e emergência. (Thiago Filgueiras Biermann)

Trabalhar de forma colaborativa, inclusive entre os concorrentes

Os maiores desafios foram manter a operação, as lojas abastecidas, a população abastecida e proteger nossos clientes, funcionários e patrimônio.

O desafio foi mostrar aos funcionários e população em geral que o Dia estava preparado para a crise e preparado para garantir a segurança de cada um.

Particularmente falando da minha área, os desafios foram muitos. Desde garantir a ordem e a segurança nas lojas, até conscientizar todos dos cuidados que deveriam ter em toda a operação. Foi um momento de se unir com colegas de outras empresas e concorrentes para fortalecer as ações em conjunto.

É na dificuldade que aprendemos mais, que somos mais desafiados e que separamos “os homens dos meninos”. (Marcos Altemari)

Comunicação como ferramenta de gestão

A minha organização já possui uma estrutura de crise e um plano para doenças epidêmicas. Claro que ninguém estava preparado para o tamanho do impacto, mas a nossa estrutura permitiu uma reação mais rápida. As principais dificuldades foram na escolha da estratégia para lidar com os times de atendimento telefônico e agências de rua. Foram muitos fatores a serem levados em consideração na tomada de decisão. Saúde, clientes, colaboradores, serviços críticos e essenciais, órgãos públicos, reguladores e entidades de representação, são alguns dos temas que tiveram que ser destrinchados para se chegar a uma decisão. Na parte da comunicação, trabalhamos no sentido de acalmar os colaboradores, conscientizar sobre os procedimentos de prevenção, disponibilizar canais para esclarecimento de dúvidas e falar com os colaboradores diariamente sobre as ações do banco. (Tiago Duran)


Participantes:

Benny Schlesinger – Gerente de Segurança na Península Participações

Breno Araújo – Head of Security Intelligence and Investigations na Souza Cruz e Vice Chairman na ASIS International

Luis Sergio Lennert – Director of Security & Crisis Management na Vestas

Marcos Altemari – Risk Management Senior Manager no DIA Brasil

Otávio Novo – Fundador e Consultor na Novo8

Thiago Filgueiras Biermann – Gestão de Risco e Emergências da VALE

Tiago Duran – Crisis Management and Business Continuity no Itaú Unibanco


Quer fazer parte da Comunidade Cultura de Segurança Brasil?
Sugestões de pautas, pesquisas, envio de artigos ou sugestão de entrevistas: blog@cosafe.com.br

Deixe uma resposta